terça-feira, 31 de julho de 2012

A colega do Pilates

Autora: Isabel Clemente


Eu tinha mudado meu horário naquele dia e entrei numa turma diferente, embora fosse o mesmo professor. Nem bem comecei a aquecer, notei a presença dela. Sorria um belo sorriso. Cabelos arrumados levemente presos num coque, brinco discreto, conjunto preto de casaco sobre uma blusa branca e uma sapatilha antiderrapante igual à minha. Um corpo esguio.  Talvez uma leve maquiagem. Não consegui não olhar. Ela chamava muita atenção. Não só pela beleza inquestionável, mas pelo sorriso simpático, pelo olhar sereno. Era uma presença magnética. Impossível não reparar naquela mulher.

Descobri, ao longo da aula, que era também bem-humorada. Só faltava essa. Ativa, iluminada e bem-humorada? Fez caso do sotaque paulista, bendisse o clima carioca. Protestou jocosamente quando o professor tentou tirá-la do aparelho no colo. “Esse homem bonitão assim me pegando no colo?” Disse que ia ficar tomando água até o final da aula. Mas seguia as instruções e executava concentrada os exercícios. Não falava demais.
Todos se rendiam àquela mulher, inclusive eu, que não conseguia disfarçar o fascínio provocado em mim. Você já passou por isso? Admirar, do nada, uma pessoa? Será que tá pegando mal, pensei. Para ser simpática, comentei qualquer coisa, ela respondeu educadamente. Pude constatar olhos felizes, mas nossa conversa não se estendeu.
Não se cria intimidade assim numa aula de Pilates. A gente não se conhecia, e eu não queria incomodar com minha curiosidade de fã recém-conquistada. Desde tenra idade, e às vezes involuntariamente, escolhemos ícones e inspirações para nossa vida. Criança adora fazer isso. Assiste a um filme e decreta o personagem que irá incorporar. “Aquela sou eu!”. Naquele dia, eu escolhi ser aquela mulher. Nada sei de sua vida, na verdade, a não ser que faz Pilates e você deve estar se perguntando o que tanto me atraiu naquela pessoa.
Talvez eu devesse mencionar que Gina, a musa inspiradora deste post, tem 90 anos e os cabelos brancos mais bem cuidados que já vi. Tal qual uma musa mitológica (daí a ilustração escolhida – da musa Clio), tinha o poder de atrair olhares e restabelecer a paz entre os homens. Naquele pequeno instante de alegria, ela encarnava a imagem de uma velhice feliz, com todos os desafios que isso representa. E essa cena me encheu de paz. Era disso que eu queria falar, da leveza inspiradora daquela mulher. A idade é só um detalhe.

Fonte: http://colunas.revistaepoca.globo.com/

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